
Brasil no mapa da inovação: o que o ranking da The Economist nos ensina
O Brasil aparece em 52o lugar entre 139 economias. Segundo da América Latina, colado no Chile. E é o único país da região que entrega mais inovação do que seu nível de renda prevê, cinco anos seguidos.

Anna Puertas
CDPO - INDT Innovation
O Brasil já está no jogo. A pergunta é se vamos jogar para ganhar.
A The Economist publicou um gráfico que circulou em todas as mesas de inovação que frequento: os países mais inovadores do mundo, a partir do Global Innovation Index 2025 da OMPI. A manchete óbvia é a China entrando no top 10 pela primeira vez. A que me interessa é outra.
O Brasil aparece em 52o lugar entre 139 economias. Segundo da América Latina, colado no Chile. E é o único país da região que entrega mais inovação do que seu nível de renda prevê, cinco anos seguidos.
Li esse dado como CDPO do INDT e como cofundadora da Evolutiva HUB. Não é um troféu. É um sinal de que temos tração, e de que estamos deixando potência na mesa.
O que o ranking está dizendo ao mundo
O topo segue previsível: Suíça, Suécia, Estados Unidos, Coreia do Sul e Singapura. O movimento está embaixo. A China chegou ao 10o lugar e abriga 24 dos 100 maiores clusters de inovação do planeta. Índia (38o), Turquia (43o) e Vietnã (44o) sobem com consistência.
O pano de fundo é de aperto. O investimento global em P&D cresceu 2,9% em 2024, o menor ritmo desde 2010. O número de negócios de venture capital caiu pelo terceiro ano seguido. E os 100 maiores clusters concentram cerca de 70% das patentes e do VC do mundo.
Tradução para quem decide: em um mundo de capital escasso, inovação vai para onde há densidade, previsibilidade e foco. País de renda média sobe quando escolhe onde quer ser excelente.
Onde o Brasil está: entregamos mais do que investimos
Saímos do 62o lugar em 2020 para o 49o em 2023. Depois, 50o em 2024 e 52o em 2025. A OMPI coloca o Brasil entre os países que mais subiram desde 2020, mas a curva estabilizou. Esse é o alerta.
O detalhe que mais me chama atenção: somos 50o em resultados de inovação e só 63o em insumos. Ou seja, o ecossistema brasileiro faz muito com pouco. Imagine com ambiente.

O diagnóstico cabe em uma frase: temos mercado, empreendedores e capital de crescimento. Falta previsibilidade, investimento de longo prazo e abertura para talento global.
Os ativos que o Brasil ainda subestima
Rankings medem o que é fácil de contar. Algumas das nossas maiores vantagens ficam fora da planilha.
Infraestrutura pública digital. O Pix mostrou que o Brasil sabe desenhar padrões abertos que o mundo estuda. Open Finance vai na mesma linha. Isso é inovação de sistema, não de produto.
Ciência aplicada ao agro. A Embrapa transformou o cerrado em potência agrícola. Agtech, biotecnologia e rastreabilidade são vantagens que poucos países conseguem replicar.
Energia limpa e bioeconomia. Matriz elétrica majoritariamente renovável e a maior biodiversidade do planeta. Em plena corrida por data centers e IA, energia limpa virou ativo de inovação.
Dados com governança. Temos LGPD, ANPD e uma população altamente digital. Quem trata privacidade como design, e não como custo, constrói confiança para escalar IA.
Talento criativo e resiliente. Nossos times aprendem a inovar com restrição. É exatamente o que o ranking mostra quando entregamos mais resultado do que insumo.
Cinco movimentos para potencializar o Brasil
Não precisamos copiar a Suíça. Precisamos fazer melhor o que já fazemos bem.
1. Previsibilidade como política de inovação. Estamos em 128o em estabilidade de políticas. Marcos como a Lei do Bem e os fundos setoriais só funcionam se o investidor confiar que valem daqui a dez anos.
2. Ligar ICTs e mercado de verdade. Institutos como o INDT existem para isso: transformar pesquisa em produto, com a indústria na mesa desde o primeiro dia. Menos edital isolado, mais programa contínuo.
3. Clusters além de São Paulo. Manaus, Recife, Florianópolis, Campinas, Belo Horizonte e Porto Alegre já têm massa crítica. Densidade se constrói com hubs que conectam startup, academia, corporação e capital.
4. Dados e IA com confiança. Governança de dados é infraestrutura. Quem estruturar dados com privacidade desde a concepção vai treinar, compartilhar e escalar IA mais rápido.
5. Abrir as portas para talento global. Somos 110o em atração de estudantes estrangeiros. Vistos de tecnologia, programas de retorno de pesquisadores brasileiros e parcerias internacionais fecham esse gap.
É essa lógica de ecossistema que nos move na Evolutiva HUB: inovação não acontece em ilhas, acontece em conexões.
De 52º para onde?
O Brasil não precisa de mais diagnóstico. Precisa de constância. Se já entregamos acima do nosso nível de renda há cinco anos, o que acontece quando dermos ao ecossistema o ambiente que ele merece?
Minha aposta: o top 30 é viável nesta década. Mas só se governo, academia, indústria e startups pararem de competir por protagonismo e começarem a construir juntos.
E você: qual desses cinco movimentos acelera mais o Brasil? Quero ouvir quem está na linha de frente.
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Fontes:
The Economist, The world's most innovative countries, 19 set. 2025
OMPI, Global Innovation Index 2025 e comunicado de imprensa
OMPI, perfis do Brasil no GII 2025 e 2024